3º ano na Escola Waldorf: atravessando o Rubicão!

Luiza Paim
mãe de duas crianças da Miguel Arcanjo

Minhas lembranças mais vivas de escola são do 3º ano do ensino fundamental, aos 9 anos. Foi quando comecei a ler livros e tomar consciência das coisas. Estudando em uma escola comum, pública, alcançou-me apenas o conteúdo teórico, ficando de lado as particularidades desta fase de desenvolvimento, mas mesmo assim lembro deste ano como um ano diferente e só agora entendi o porquê.

Lousa Profissões - 3º ano da Miguel Arcanjo
Detalhe da lousa do 3º da Miguel Arcanjo


Hoje sou mãe de 3 crianças, duas delas estudam na Miguel Arcanjo, escola Waldorf de Belo Horizonte. Antonio, o mais velho, já passou pelo 3º ano em 2016 e Olívia passará em 2018. E sim, é um ano especial na vida da criança. 

Por volta dos 9 anos a criança passa por uma crise. Começa a perceber que é um ser independente, que um dia todos nós morreremos, que o pai, a mãe ou a professora não são super poderosos. Algumas têm medos. Choram por qualquer coisa. Criticam e discordam da autoridade amada. Em resumo: a criança entende que o mundo não é um paraíso e que precisará trilhar o caminho com seus próprios passos. É o tal Rubicão*.

Olhar para essa criança e saber que tudo isso é normal e ter elementos que a ajudem a atravessar a fase de forma saudável é um alívio para os pais, e a Pedagogia Waldorf faz isso muito bem.

O currículo, elaborado especialmente para cada fase do desenvolvimento do ser humano, cuida inteiramente desse pequeno ser. 

Histórias do Antigo Testamento contam a queda do Paraíso e como o homem passa a viver na Terra e retirar do próprio trabalho o seu sustento. 

O trabalho na terra e observação dos processos naturais das coisas - do cultivo do trigo à colheita e confecção da farinha, do forno e do pão! - mostram como as coisas são feitas, assim como as vivências de profissões primordiais, como carpintaria, tecelagem, ferragem...
Preparando o terreno para o cultivo da terra. Foi um trabalho duro, o lote era pura pedra!

Ferro forjado durante a visita à ferraria. Ah, é assim que se faz uma espada! 

Essa chegada à Terra para a criança é acolhida com o reconhecimento de sua primeira casa - o próprio corpo - e nos trabalhos manuais ela cria um boneco. Então passa à construção da casa primordial, após observar casas de animais e de outras culturas. Ainda projeta e constrói a própria casa (e essa época exige muito esforço), mas ao final de todo o trabalho duro, esta criança se coloca no mundo com muito mais segurança.

Tricotando o corpo do Felipe. Além do tricô e do boneco, este trabalho traz tranquilidade e concentração.


A Casa sendo construída. Por dentro, a criança reconhece seu lugar neste mundo...

Tudo isso contemplando o currículo exigido pelo MEC, que é absorvido com facilidade, pois a criança é cuidada integralmente, e as matérias não pesam.

O teatro está sempre presente: as crianças aprendem a se colocar no mundo.
É possível crescer de forma mais leve. É possível formar o ser humano com mais cuidado, evitando traumas e inseguranças. É possível olhar o todo na infância, oferecer o que é adequado a cada fase da vida respeitando o processo que é se tornar um adulto. E sim, é possível ser feliz na escola! Na Miguel Arcanjo acontece esse "encaixe perfeito" porque a Pedagogia Waldorf foi desenvolvida para o ser humano. Bem diferente de quando a criança precisa se moldar para dar conta da escola que lhe é imposta.

Eu sobrevivi ao meu 3º ano tradicional. E revisitando esta fase, agora como mãe, sinto uma alegria enorme em saber que meus filhos estão fazendo mais que sobreviver à escola: eles estão VIVENDO. 

O trigo brotando...
Precisaram confeccionar Miguel, o espantalho, para proteger o canteiro.

...trigo colhido

Malhando o trigo para fazer a farinha



* Rubicão: rio ao sul da Itália, por onde qualquer general era proibido, por lei, de atravessar quando retornasse à Roma com seus exércitos. Mas Júlio César ousou atravessá-lo e, enquanto isso, teria dito seu famoso alea jacta est, ou a sorte está lançada, já que não tinha mais volta. É mais ou menos isso o que acontece nessa idade. Não tem mais como voltar para aquele mundo de fantasia e para a barra da saia de mãe exatamente como era. Mas, depois da batalha inevitável, Júlio César fundou o Império Romano. Assim também esse momento prepara nossos filhos para os grandes feitos da vida. (definição por Fabi Correa)

Miguel Arcanjo: Ensino Fundamental Waldorf em Belo Horizonte

Arte, Música, Movimento, Beleza, Histórias, Fazer com as próprias mãos, Contato com a terra, Ritmo... Sentir! São algumas das qualidades e atividades praticadas pela Miguel Arcanjo.

Somos uma escola de Ensino Fundamental Waldorf!

Isso significa que nosso modo de ensinar leva em consideração o desenvolvimento do ser humano. Todo o conteúdo é apresentado por imagens - histórias, arte, movimentos, música - para que a criança possa primeiro Sentir, vivenciar, experimentar... e então, quando chega no Pensar, vem aquele momento "a-há!!!!", em que tudo faz sentido, e isso alimenta a força de vontade para o Fazer.

Sentir, Pensar, Agir: aprendizado integral.






"A nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar propósito e direção para suas vidas." (Rudolf Steiner)

Ελληνικά παιχνίδια: os Jogos Gregos na Miguel Arcanjo Escola Waldorf

No currículo Waldorf, que é baseado no desenvolvimento da humanidade, a cada ano é apresentado às crianças um ponto de vista deste fio dourado que conduz nossa história. Se até o 4º ano a humanidade é apresentada através contos, lendas, biografias e mitologias, a chegada ao 5º ano marca o início do estudo das Antigas Civilizações: Índia Antiga, Babilônia, Persia, Egito e Grécia. A época dedicada à Grécia é muito especial e na escola as crianças vivenciam intensamente cada descoberta. Da leitura de pequenos textos na língua grega, a desenhos, música, dança, costumes e comidas deste povo.

A época é finalizada com a realização dos Jogos Gregos. A turma de 2017 da Miguel Arcanjo resolveu envolver toda a comunidade neste grande evento: fizeram uma emocionante cerimônia de abertura pública e convidaram os amigos mais novos para a torcida e os mais velhos para ajudar nos "treinos". A época tem um caráter interdisciplinar, envolvendo principalmente a Educação Física, Euritmia, Música e a professora de Classe.

A seguir imagens desta maravilhosa vivência na Miguel Arcanjo.

Atletas com os professores responsáveis pela organização dos Jogos

Cartazes com enigmas sobre os Povos Gregos foram espalhados pela escola aguçando a curiosidade das crianças de outras turmas



Euritmia

Acendimento da pira Olímpica

Juramento dos atletas

O dia estava chuvoso, mas a chama olímpica manteve-se acesa

Alunos 5º ano contaram com o apoio dos amigos do 6º e 7º anos

Αθήνα, Κρήτη e Σπάρτη
no lançamento de dardo

Lançamento de dardo

Os amigos mais novos apoiaram com seu entusiasmo e alegria na torcida

Lançamento de disco

Comunidade vivenciou junto esta importante época

Salto à distância

Coroação: todos são vencedores, pois tiveram a coragem de enfrentar seus próprios limites



Como de costume na Miguel Arcanjo, toda a comunidade esteve envolvida, no antes, durante e depois.
Reforçamos nossos valores: coragem, veneração, vivificação do trabalho, diálogo, entusiasmo e aprendizado.

Após os jogos, foi oferecido a todos um delicioso banquete inspirado na cultura grega

Da sala de aula para a vida: um novo olhar para a Química

por Professora Patrícia Morais



O 7º ano encerrou a época de química na última semana. Foi uma época muito interessante, todos - professora e alunos - ficamos entusiasmados com o que fizemos: as experiências, as observações e as ponderações. 

O que chama mais atenção nessas épocas de ciências é como o aluno se relaciona com os experimentos e os aprendizados que ele tira para sua própria vida. Essa foi a grande surpresa da época de química: através de experiências pudemos conversar sobre coisas profundas da vida humana. 

Foi a primeira vez que a turma estudou química de forma consciente e sistemática, pois a química é estudada desde o 1º ano, mas não com esse nome. Ao longo do ensino fundamental as crianças vivenciam a química quando fazem comida, experimentam a química dos alimentos, fazem pequenas fogueirinhas, observam o processo de combustão e como cada elemento se comporta quando pega fogo, provam sabores e diferenciam entre ácidos,doces, salgados, amargos, adstringentes...


No 7º ano tudo isso ganha consciência na época de química. O currículo deste ano contempla a combustão, o ciclo da cal e o estudo do calcário, a relação dos ácidos e bases com indicador de PH. Começamos a época fazendo uma fogueira, tão comum, como sempre fizeram, mas que neste momento foi observada de um outro ponto de vista, em termos de consciência. E quantas coisas observamos! Quanto pudemos conversar! O fogo tem um poder gigantesco e quando o homem o recebeu dos deuses, pôde dominar o mundo: passamos a cozinhar o alimento, nos aquecer, afugentar animais ferozes... 


Na experiência da fogueira, cada aluno pôde ir ao bosque da escola pegar "tesouros" para jogar na fogueira: flores, pedras, folhas e até cana-de-açúcar - como ela se comportaria no fogo? Reunimos os objetos e contemplamos. Perguntei: "vocês sabem o que vai acontecer com isso? Flores perfumadas, frutos do algodoeiro... tudo irá desaparecer, será transformado. Vocês estão preparados para isso?"


E foi sobre isso que conversamos no dia seguinte, durante a retrospectiva: o que aconteceu com as flores, qual o cheiro, e com a cana... a cana virou melado! Tudo foi transformado! O fogo destrói e também transforma. A conversa se aprofundou e os jovens perceberam que na vida podemos olhar para os fatos e escolher se vamos considerá-los destrutivos ou transformadores. Nesta fase do desenvolvimento, em que estão passando da infância para a juventude, eles vivem uma verdadeira fogueira dentro de si. Fogueira que pode ser tanto destrutiva quanto transformadora. Cabe a cada um saber lidar com o seu fogo interno. 

Outra experiência desta época foi a bomba de cal. A cal foi colocada em uma garrafa, depois adicionamos água e fechamos a garrafa. Eles elaboraram hipóteses do que poderia acontecer. E pudemos observar a explosão! Observamos que quando a pressão fica muito grande (pelo calor e vapor d'água que são liberados) ela explode, e pode ser destrutiva. Percebemos que a coisas que ficam guardadas em nós precisam ser elaboradas para sair de forma equilibrada, e não como numa explosão. A busca deste equilíbrio é uma vivencia diária!


Também trabalhamos o indicador de PH, feito com suco de repolho roxo, e que surpresa a mudança mágica de cores no tubo de ensaio, quando o experimentávamos em cada substância: suco de limão, ácido clorídrico, vinagre, sal, bicarbonato de sódio...

A química está presente desde o 1º ano, mas sem a conscientização, pois na Pedagogia Waldorf as crianças dos primeiros anos ainda deveriam viver em um ambiente sem muita explicação teórica, mas sentindo, fazendo e observando o que faz. A Época de Química, no 7º ano, reúne os conhecimentos que foram construídos em anos anteriores. Recordamos a Botânica do 5º ano ao percebermos o que a planta faz quando cresce, incorporando gás carbônico, água, luz e calor e, na fogueira, durante o processo de combustão, esses mesmos elementos que fazem parte do ser vegetal, são disponibilizados para o mundo externo. Conversamos sobre como podemos dar apenas o que temos dentro de nós!

No caso da rocha e da cal, a mineralogia do 6º ano pôde voltar, ao revermos a formação da rocha. Os conhecimentos construídos nos anos anteriores ganham consciência com aplicabilidade dentro da química. Assim é o caminho curricular na Pedagogia Waldorf e é maravilhoso vivenciar isso com os alunos, dentro do seu próprio desenvolvimento enquanto ser humano.

O conteúdo na Pedagogia Waldorf é só um pretexto: no fundo estamos estudando química para falar de nós, para instrumentalizar esses meninos e meninas para a vida adulta. Contar a eles como podemos nos comportar perante as situações e vivências anímicas neste corpo astral que está prestes a nascer, com toda a astralidade que tem direito, sem ainda a força do EU, que só chega ao final do 3º setênio. 

Usamos o currículo para dizer que: "Essa força dentro de você, meu querido aluno, é controlável, assim como o fogo. Podemos colocar mais lenha e deixar crescer em uma grande fogueira, se assim quisermos. Ou podemos controlá-lo numa colher (mesmo que a substância seja altamente inflamável, como fizemos com a gasolina). Nós estamos no controle, e usufruímos do poder transformador que o fogo pode proporcionar."

Tudo na vida é assim, as coisas podem ser vistas de formas diferentes, podem ser destrutivas ou transformadoras. No fundo, ser Professora Waldorf traz o maior sentimento de gratidão pela vida que um ser humano pode desenvolver. E falar disso com meus alunos é simplesmente maravilhoso.

Micael, 29/09/17


*lousa da professora de classe Patrícia de Oliveira Morais | Miguel Arcanjo Escola Waldorf

A construção de um Yurt, a construção de uma comunidade

                                                                                                                                                                    A história do Yurt da Escola Miguel Arcanjo começou em 2016. Com a necessidade de uma sala para as aulas de Euritmia e um espaço para Cursos, Oficinas, Escola de Pais, Reuniões e outros encontros, surgiu o curso "Ecoconstrução de Yurt - moradia nômade de bambu".

Anterior ao curso, quando seria construído um yurt - ou yurta, pois é uma casa que veste saia - foi realizado um mutirão para construção da base. Neste dia, mães, pais, professores e amigos da escola levaram força, alegria e entusiasmo e o chão foi feito.



                                                                            
O curso foi realizado em abril de 2016 e contou com a participação da comunidade escolar, de estudantes universitários, professores de cursos de arquitetura, professores waldorf, bioconstrutores e permacultores. Pablo Bedmar, pioneiro na construção de yurts no Brasil conduziu a turma.





Pablo Bedmar, nosso professor de Yurt!


                                                                         

Nosso Yurt nasceu! Durante o último ano foi local de ricos encontros da comunidade e das belas aulas de Euritmia das crianças da Miguel Arcanjo.

Ele é "guardado" pela Diretoria de Infraestrutura da AMAR e pelas professoras Neiele (Euritmia) e Aísha (classe) mas em todas as intervenções e reformas toda a comunidade é convidada a participar.

No último mês deu-se início à confecção da nova roupa para nossa Yurta. Isso foi possível graças à doação de lona branquinha e nova. Em diversos mutirões, com a presença e orientação do Pablo e a alegria e disposição da comunidade, foi medida, cortada e colada a cobertura nova. O trabalho foi finalizado hoje, por professoras, mães, pais, amigos e crianças. 



Crianças sempre presentes

Lua e estrela

Professoras Neiele e Aísha, guardiãs do yurt


Orgulho




Estamos muito, muito felizes e orgulhosos deste trabalho comunitário. Ele reflete o que queremos ser no mundo. E cumpre a missão da Miguel Arcanjo: "Atuar junto à comunidade, através da educação de crianças, pais e professores, promovendo encontros vivificados pela Pedagogia Waldorf, a serviço do bem comum."